Fornecedores para óleo e gás veem retomada em 2019

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Em 2011, a empresa de movimentação de cargas Locar decidiu investir R$ 140 milhões na construção da primeira balsa nacional de lançamento de dutos, de olho no boom das encomendas da Petrobras. O equipamento ficou pronto em dois anos, mas não houve o que comemorar: em 2014 a estatal entrou em crise, impactada pela queda dos preços do barril e pelos desdobramentos da Lava-Jato, e a balsa já não tinha mercado. Só este mês, após cinco anos de hibernação, o equipamento será usado pela primeira vez.
A história da balsa da Locar é a história de muitas outras fornecedoras de bens e serviços da indústria de óleo e gás, que ficaram os últimos anos ociosas, mas vivem a expectativa de retomada da demanda. Os cinco leilões de áreas exploratórias realizados pelo governo desde o ano passado começarão em breve a fazer a roda girar. Aos poucos, o mercado de trabalho já dá sinais de recuperação na indústria petrolífera – que espera por sinais de recuperação ainda mais nítidos a partir de 2019.
A Agência Nacional de Petróleo (ANP) estima em R$ 3,5 bilhões os investimentos mínimos na exploração das 68 áreas arrematadas nos leilões de 2017 e 2018. O primeiro elo da cadeia a sentir os efeitos da recuperação é o de serviços – como o de sísmicas e perfuração de poços. A demanda por Os números já mostram sinais de aquecimento no setor de sísmica. De acordo com levantamento do site especializado E&P Brasil, o Ibama já recebeu nos sete primeiros meses deste ano 14 pedidos de licenciamento para campanhas de aquisição sísmica, número superior aos 12 pedidos registrados ao longo de todo o ano passado. A previsão das empresas é começar os levantamentos nos próximos meses, embora a maioria dos serviços esteja programada para 2019. Estão previstas campanhas em áreas onde estão localizados vários blocos arrematados nos últimos leilões, nas bacias de Santos, Campos, Espírito Santo e Potiguar.
O setor de sísmicas foi um dos mais afetados pela queda das atividades exploratórios no Brasil nos últimos anos. As empresas nacionais foram praticamente extintas e o mercado é dominado basicamente pelas estrangeiras.
“Existe um reaquecimento no setor hoje, mas basicamente em mar. A exploração em terra está praticamente parada há dois anos, porque os desinvestimentos dos ativos terrestres da Petrobras ainda não avançou. Além disso, a ANP prorrogou os prazos dos investimentos obrigatórios dos leilões de 2013. As consultas por serviços estão voltando nessa área [onshore], ainda de forma tímida, mas guardamos um certo otimismo para 2019, com a conclusão dos desinvestimentos da Petrobras. São novos players chegando”, avalia Ricardo Savini, presidente da Georadar, empresa nacional que está praticamente há dois anos sem serviços e se dedica neste momento à reestruturação de sua dívida.
A recuperação passa também pela desconcentração da indústria. Os leilões de 2017 e 2018 atraíram, ao todo, 20 operadoras diferentes, dentre elas gigantes como a ExxonMobi l, Shell, BP, Equinor (ex- Statoil) e Chevron.
Segundo a Firjan, o número de empregados no setor de óleo e gás, no Rio, já acumula três anos seguidos de queda
“Há uma certa retomada, ainda que gradual. A Petrobras está voltando ao mercado, mas não só ela. Tem novos investidores de terminais de gás natural liquefeito no país e temos propostas também no Chile, Argentina e Peru. Com o desaquecimento, buscamos outros mercados”, comenta Henrique Bravo, vice-presidente da Locar, cuja balsa foi contratada pela Sapura Energy, responsável pela engenharia e construção do gasoduto do Complexo Termoelétrico Porto de Sergipe I, da Celse.
Em Macaé (RJ), conhecida como capital do petróleo, cresce a procura de terrenos por parte de fornecedores, de olho nas perspectivas de encomendas dos leilões e de retomada dos investimentos na Bacia de Campos. A Petrobras já fechou com a Equinor e negocia com a chinesa CNPC parcerias para projetos de revitalização de importantes campos maduros na região. No Parque Industrial Bellavista, espécie de condomínio industrial de Macaé, a expectativa é superar o número de contratos de 2017.
“Considerando as negociações mais ‘quentes’, aquelas que estão realmente evoluindo recentemente, estamos negociando com 12 empresas, sendo oito brasileiras e quatro estrangeiras, entre médias e grandes companhias. Achamos que vamos superar os quatro contratos assinados e 2017”, disse o diretor do Bellavista, Leonardo Dias.
A gerente sênior de recrutamento da Robert Half, Flávia Alencastro, destaca que as empresas, mais otimistas, já começaram a movimentar o mercado de trabalho. Segundo ela, crescem os relatos de novos projetos e de profissionais que estão recebendo promoções, propostas e contrapropostas. Flávia explica que a recuperação da demanda será sentida de forma mais expressiva na engenharia.
“Ainda existe uma certa cautela, não estamos falando de um retorno aos patamares áureos do mercado, mas há indicativos de um reaquecimento por vir… Quando passamos por um momento de desaquecimento, a área técnica, de engenharia, sofre mais com a falta de projetos. Quando o setor reaquece, isso acontece mais forte justamente nessa área”, explica.
Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), o número de empregados no setor de óleo e gás, no Rio, já acumula três anos seguidos de queda. Depois de atingir um pico de 96 mil profissionais em 2014, caiu para cerca de 82 mil em 2017. De acordo com o coordenador estratégico de óleo e gás da Firjan, Thiago Valejo, porém, a tendência é que nos próximos anos os níveis superem os 100 mil.
“Não são só os leilões. O ambiente de negócios tem melhorado como um todo, com a flexibilização da política de conteúdo local e extensão do Repetro [regime aduaneiro especial para o setor petrolífero]. Isso tudo deve gerar novos projetos no país”, avalia.